geopolítica

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“Como judeu, sinto vergonha”

Posted by escriba on 16 Jan 2009 | Tagged as: civilização, geopolítica, imprensa, internacional, politica, religião

Meu camarada Marcelo Kischinhevsky, professor de Jornalismo e doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, me mandou um texto sincero, humano, sobre a punição que Israel impõe sobre o povo palestino. Na verdade, é um texto sobre intolerância, de ambas as partes. Sem mais delongas, segue abaixo:

Como judeu, sinto vergonha. Envergonha-me o uso de artilharia pesada contra alvos civis, como escolas, o campus da Universidade Islâmica de Gaza e instalações da Organização das Nações Unidas. Envergonha-me o cerco às fronteiras do território palestino, que remete aos piores momentos da história humana e evoca imagens do Gueto de Varsóvia. Envergonham-me as restrições ao trabalho da imprensa, impedida de trazer à luz do sol grande parte dos fatos de uma guerra que vem sendo travada, especialmente, no campo da (des)informação. E envergonha-me, sobretudo, ver Israel rebaixando-se à política do ódio praticada pelos terroristas que tanto deseja aniquilar.

Se há algo que não tolero – perdoem a figura de retórica – é a intolerância. O fanatismo de parte a parte nos levou a um conflito sangrento em que a primeira vítima acaba sendo a razão. Antes que seja acusado de antissionista, devo afirmar que não represento grupos de qualquer tipo. Falo aqui como cidadão do Brasil, país onde, afortunadamente, as diferenças de ordem religiosa são em geral respeitadas. Salvo ocasionais chutes em imagens de santas.

Para os ultraortodoxos, não poderia nem ser considerado judeu, pois minha mãe (maranhense de São Luís) converteu-se à fé judaica quando se casou com meu pai, filho de imigrantes da antiga Bessarábia e da Rússia. Como já demonstraram Hobsbawn e Ranger, tradições são invenções humanas. Muitas vezes, seus sentidos originais deslocam-se, transformam-se, deformam-se. A “transmissão” do judaísmo pelo ventre materno, muitos já nem lembram, foi uma estratégia de sobrevivência decidida pelos rabinos durante período de ocupação romana na Palestina, quando o estupro em massa era uma arma de guerra, visando à “romanização” dos territórios conquistados. Hoje, quem diria, virou instrumento de discriminação, usado por aqueles religiosos que condenam os casamentos entre judeus e não-judeus.

Falo, portanto, como judeu, fruto de uma tradição liberal e que busca a compreensão e a aceitação do Outro. Não que o Hamas seja um grupo aberto ao diálogo. Sabemos que não: quando Israel se retirou da Faixa de Gaza, o Hamas iniciou uma onda de assassinatos de líderes do Fatah, que desarticulou a ala moderada palestina no território. O Hamas prega publicamente a destruição do Estado de Israel. Lucra com o embargo a Gaza, administrando o contrabando, que abrange desde armas até itens de primeira necessidade, como remédios e comida. Esconde armas em escolas e mesquitas. Usa crianças como escudos humanos. Promove atentados suicidas, agora inclusive por meio de mulheres-bomba. Mas nem por isso devemos tomá-lo pela totalidade do povo palestino.

Assusta-me ouvir de judeus à direita e à esquerda que a guerra é “necessária” e que não se deve respeitar quem sonha com a nossa destruição. Estão cegos a ponto de não perceberem a generalização – palestinos = homens-bomba? É preciso lembrar que também judeus foram tachados de terroristas, pelos atentados a alvos britânicos, soberanos da região na época da partilha da Palestina.

A cotidiana chuva de foguetes sobre o lado israelense da fronteira é uma realidade que tem profundas repercussões econômicas, políticas e psicológicas, especialmente sobre as novas gerações já habituadas a correr para bunkers quando soam as sirenes. Mas estes atos de terrorismo, praticados por uma minoria armada, estão longe de justificar a agressão a todo um território, onde se refugiaram centenas de milhares de civis palestinos, expulsos de suas terras pela criação do Estado judeu e pelos sucessivos assentamentos em áreas tomadas durante conflitos militares.

Difícil engolir o discurso de que as imagens trazidas pelos poucos repórteres de agências internacionais de notícias presentes na região sejam fraudes, como sugeriu uma representante da comunidade judaica, que acusou esta semana a imprensa de cruzar a “linha da decência ao expor até nas primeiras páginas fotos de crianças mortas, crianças feridas e até mesmo fotos montadas”. Devemos creditar todas as tragédias relatadas durante a ofensiva à máquina de propaganda palestina? Onde foi parar a tradição humanista do judaísmo, da qual sempre me orgulhei?

A agressão de Israel só vai gerar mais agressões, fortalecendo o fanatismo e o ódio. Não se combate o terror com tanques em áreas urbanas, mas com inteligência. Israel tem direito a defender-se e lutar por sua existência como Nação. Isso só não deve ser pretexto para que os israelenses passem um cheque em branco nominal à ultradireita judaica, com sua agenda belicista e sua argumentação rasteira, de relações-públicas de quinta categoria.

Em nome da razão e de um futuro para o Oriente Médio, parem a guerra em Gaza. Já.

O Dr. Fantástico tupiniquim

Posted by escriba on 12 Jan 2009 | Tagged as: boca no trombone, brasil, geopolítica

Quem melhor, no Brasil, para encarnar o personagem vivido por Peter Sellers no filme Dr. Fantástico (ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba), do Stanley Kubrick, do que o nosso ministro Mangabeira Unger? O Dr. Fantástico, no caso, é um misterioso cientista alemão que sofre de uma síndrome estranha na mão, que insiste em fazer a saudação nazista sempre que ele se empolga em seus discursos militaristas e eugenistas. No filme, ele trabalha para o governo americano e, uma vez que é deflagrada a guerra entre EUA e URSS, tenta fazer com que apenas seres superiores, fisica e intelectualmente, sejam recolhidos ao bunker anti-nuclear.

Mangabeira Unger já adotou pelo menos a parte militarista desse discurso: o cabra está doido para ver o Brasil com armas atômicas para defender a Amazônia, o pré-sal, as águas subterrâneas, o carnaval, sei-lá-mais-o-que… Para isso, já bateu o martelo: o Brasil não assinará o protocolo extra que revisará em 2010 o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). O discurso oficial é de que o Brasil, hoje integrante do Tratado, só o fará novamente caso as grandes potências se desarmem. Mas é público e notório o desagrado de várias figuras nebulosas (e influentes) com a adesão do Brasil ao TNP. São pessoas que gravitam há anos em torno do governo federal, como o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear (aquele da tentativa de explodir um artefato nuclear na Serra do Cachimbo, no início da década de 1990), Rex Nazareth (ex-presidente da Cnen) e embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty (um dos maiores defensores da retirada do Brasil do TNP). E eles exercem uma grande pressão para que o Brasil seja uma potência militar e atômica. Dr. Fantástico fez escola.

A propósito, Vinicius Mota escreveu neste domingo sobre o assunto em sua coluna na Folha. Segue abaixo:

Às armas, cidadãos


SÃO PAULO
- O ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, conclamou -”O Brasil vai às armas!”-, e a população respondeu. Nas favelas, no Senado, na Baixada Fluminense, só se fala de outra coisa.

Melhor assim. Entusiasmado com o verde-oliva, o professor defendia o serviço patriótico obrigatório para todos. “A transformação do país exige sacrifício”, pregava. Sacrificaram-lhe a proposta. O documento que restou de sua curiosa interação com Nelson Jobim (Defesa), a Estratégia Nacional de Defesa, contudo, não deixa de acariciar uma certa nostalgia nacionalista.

Há um lamento antigo, numa corrente minoritária que preza acima de tudo o destino manifesto do Brasil de tornar-se potência, sobre a renúncia do país à bomba atômica. Mangabeira veste bem o figurino do nosso Doutor Fantástico.

A certa altura, o documento diz que o Brasil tem compromisso com o uso pacífico da energia atômica. “Entretanto, afirma a necessidade estratégica de desenvolver e dominar a tecnologia nuclear”. Entendeu o emprego do “entretanto”?

A picuinha do momento é a recusa do Brasil em assinar o protocolo extra do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Não o faremos, exorta o documento, até que as potências atômicas comecem a desarmar-se.

O governo reluta em ampliar o acesso de fiscais da ONU a locais onde é processado material radioativo. Haveria segredos industriais a preservar, centrífugas de urânio sensacionais. O argumento provoca risos em gente que conhece o tema.

Não há nada a esconder, senhores. O “uso estritamente pacífico” da energia nuclear não depende de tratado internacional. Está claríssimo na Constituição. E os cidadãos brasileiros têm direito de saber o que se passa nessas instalações.

Em tempo: vale conferir também o artigo Banindo a Bomba (texto em inglês), de Peter David, editor de internacional da revista The Economist. Um tanto lúgubre, mas fundamental. Uma frase:

“Não é provável que algum Estado armado caminhe para o desarmamento (nuclear) sem que existam movimentos simultâneos para fortalecer as salvaguardas contra a proliferação”.

Vitória de Pirro no STF?

Posted by escriba on 10 Dec 2008 | Tagged as: Meio Ambiente, Rede Ecoblogs, civilização, geopolítica, politica

O julgamento no Supremo Tribunal Federal ainda não acabou, porque o ministro Marco Aurélio Mello quer analisar melhor a questão, mas o resultado já tá definido: a demarcação da reserva indígena na Serra Raposa do Sol, em Roraima, respeitará a Constituição brasileira e será contínua. Os arrozeiros - muitos deles políticos, grileiros e afins - terão que sair. A decisão, que é mas não é ainda, acirrou os ânimos entre invasores e índios. Os primeiros dizem que não vão sair agora, que a Funai tem que rever o valor das indenizações, que o tempo lhes favorece e que eles não vão ser escurrachados de lá pelo governo. Já os índios e ONGs não gostaram do adiamento da decisão final, pedem mais segurança ao governo e, em alguns casos como no do Greenpeace, consideram que o resultado fere os direitos indígenas, porque tira dos índios a prerrogativa de serem consultados sobre as ações do governo na região.

Eu particularmente acho até que, se os índios quiserem declarar independência de seu território, se declararem jupiterianos ou descendentes dos atlântis, é justo, Isso num mundo ideal, claro. Mas sei das implicâncias geopolíticas de tal ato e que muitos países foram à guerra para evitar esse tipo de cisão. Por que não, então, trabalhar com eles, respeitar suas necessidades locais e desenvolver uma espécie de PAC indígena, em parceria? Melhor do que colocá-los em constante estado de suspeição e assim cinicamente negar-lhes o que é seu de direito, não?

Quando o caso é de farinha pouca, cada um tenta cuidar do seu pirão, e é até compreensível (nem sempre justificável…). Mas lá tem terra pra caramba - e de mais a mais os invasores são os arrozeiros e a Constituição brasileira diz que os índios têm razão. Então, qual o motivo de tanta confusão? Vão plantar arroz noutro lugar!

EM TEMPO: Também nesta quarta-feira, o líder sindical e ecologista Chico Mendes foi anistiado pelo governo Lula. A família dele receberá pouco mais de R$ 330 mil de indenização pela perseguição sofrida na ditadura militar e mais uma pensão mensal de R$ 3 mil.

É o preço do autoritarismo, que normalmente se paga em tempos democráticos.

Galeano Ali Chomsky

Posted by escriba on 01 Dec 2008 | Tagged as: geopolítica

Eduardo Galeano:

Quando eu estava na escola, a professor nos explicou que Vasco Núñez de Balboa tinha sido o primeiro homem a ver os dois oceanos, a ver os dois mares de uma só vez, o Pacífico e o Atlântico, desde uma montanha no Panamá; o primeiro homem.

Eu levantei e a mão e disse: - Senhorita, senhorita…

- Sim?

- Os índios eram cegos?

- Fora!

Foi minha primeira expulsão.

Íntegra aqui.

Tarik Ali:

A vitória de Barack Obama supõe uma mudança geracional e sociológica decisiva na política dos Estados Unidos. É difícil, nestes momentos, predizer seu impacto, mas as expectativas suscitadas entre a gente jovem que impulsionou Obama seguem sendo grandes. Talvez não tenha sido uma vitória arrasadora, mas foi suficientemente ampla para permitir que os democratas ficassem com mais de 50% do eleitorado (62,4 milhões de votantes) e colocassem uma família negra na Casa Branca.

O significado histórico deste fato não deveria ser subestimado. Basta lembrar o que ocorreu no país em que a Ku-Klux-Klan chegou a ter milhões de membros capazes de executar uma campanha de terror e morte contra cidadãos negros com o apoio de um sistema jurídico discriminatório. Como esquecer aquelas fotos de afroamericanos linchados diante do olhar complacente de famílias brancas que desfrutavam seus piqueniques enquanto contemplavam – para dizê-lo na voz memorável de Billie Holliday – “corpos negros balançando-se com a brisa do sul, um fruto estranho pendurado nos álamos”?

Íntegra aqui.

Noam Chomsky:

É importante lembrar que o espectro político nos EUA é bastante estreito. É uma sociedade controlada pelas empresas, basicamente, é um Estado de partido único, com duas facções, democratas e republicanos. As facções têm algumas diferenças e estas, às vezes, são significativas. Mas o espectro é bastante estreito. A administração Bush, porém, se situava bastante além do final do espectro, com nacionalistas radicais extremos, crentes extremos no poder do Estado, na violência no exterior e em um alto gasto governamental. De fato, estavam tão fora do espectro que foram criticados duramente inclusive por parte do poder, desde os primeiros tempos.

Seja quem for que assuma o mandato, é provável que desloque o tabuleiro político para o centro do espectro. Obama talvez faça isso em maior medida. Diria que, no caso de Obama, haverá algo como um renascimento dos anos Clinton, adaptado certamente às novas circunstâncias.

Íntegra aqui.

Obama venceu! E agora?

Posted by escriba on 05 Nov 2008 | Tagged as: geopolítica, internacional, politica

(Charge de Rodrigo - http://clix.expresso.pt/gen.pl?sid=ex.sections/23465 )

Um negro boa pinta, com nome árabe que lembra o maior algoz americano, chegou à Casa Branca, num país com histórico terrível de intolerância e racismo. E de quebra ainda fez o Bush Jr. sair da história pela porta dos fundos. Não é pouco. Mas no frigir dos ovos, não sei o quanto a vitória do Obama servirá para mudar a pegada americana no mundo - politica, financeira e militarmente. Fiquei pensando nisso durante a madrugada, quando acompanhei os finalmentes da votação e o início da apuração (pela Record News, que deu um banho nas outras emissoras nesse quesito, parabéns!)

Se lembrarmos de Clinton na presidência, há oito anos, veremos que as grandes corporações deitaram e rolaram as usual, bem como as forças militares americanas pelo mundo, que atacaram vários países (Afeganistão, Somália, Haite, Bósnia, entre outros) e violaram leis da Comunidade Internacional, entre elas a Convenção de Hague, Pacto de Paris, Carta da ONU, Carta da OEA, Tratado do Atlântico Norte, Convenção de Genebra, e por aí vai.

Nesses ataques, usaram munição radioativas (com urânio), bombas de fragmentação (cujo único propósito é matar e ferir) e até armas químicas. Morreu gente às pencas, o mundo protestou e ficou por isso mesmo.

Não estou dizendo que Obama fará o mesmo, mas a máquina é bem maior do que ele e engana-se quem pensa que o novo presidente dos EUA vai muito diferente do que vimos até hoje por lá. De qualquer forma, é muito maneiro ver um presidente negro na Casa Branca. Não à toa líderes de todo o mundo estão pra lá de esperançosos.

Bom ficar atento às promessas feitas pelo novo presidente americano, pra ver se tudo não passa de retórica ou significa mesmo que estamos num processo irreversível de mudanças. Cacife ele tem, mas terá disposição?

Pra que ele não esqueça do que prometeu o pessoal do Avaaz está pensando em fazer um imenso mural em Washington DC com mensagens de apoio a Obama, e convidando o cara a trabalhar em parceria com o mundo. Clique aqui e mande a sua!

Amazônia armada até os dentes

Posted by escriba on 02 Nov 2008 | Tagged as: geopolítica

Brasil vai reforçar militarmente a Amazônia, revela reportagem da revista IstoÉ. Em tempos de escassez de recursos e ressurgimento da IV Frota Naval americana, até faz sentido. Explica, mas não justifica.


A verdade, ainda que tardia

Posted by escriba on 19 Jun 2008 | Tagged as: boca no trombone, filmes, geopolítica, internacional

O que realmente aconteceu naquele fatídico 11 de setembro de 2001, quando as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York vieram abaixo com o choque de dois aviões comerciais? Para Bush e cia, foi um atentado terrorista engendrado pela Al Qaeda. Para muita gente, no entanto, o governo americano teve papel preponderante na história toda. Costumo dizer que teorias conspiratórias + fatos = conspiração. E os fatos estão pipocando aqui e ali, com força suficiente para levantar dúvidas e suspeitas em um número cada vez maior de pessoas.

Pessoas como Yukihisa Fujita, do Partido Democrata japonês, que têm tido a coragem de levar a público todas essas questões. Ele tem conversado com políticos no Japão, EUA e União Européia, e liderado uma ação legal em defesa da instalação de uma comissão independente de investigação para descobrir o que realmente aconteceu naquele dia. Fujita tem baseado sua argumentação em inúmeros vídeos e textos publicados em livros e na internet, muitos dos quais compilados pelo site Patriots Question 911 - que traz centenas de alegações contra a história oficial levantadas por ex-oficiais militares, serviços de inteligência, policiais, ex-membros do governo americano, pilotos, engenheiros, arquitetos, bombeiros e outros.

A verdade começará a ser revelada no momento em que Bush e sua trupe deixarem a Casa Branca.

Matando em nome de tanta coisa

Posted by escriba on 28 May 2008 | Tagged as: civilização, geopolítica, internacional

A Anistia Internacional produziu um mapa muito louco com a síntese dos muitos conflitos que já fizeram muito estrago por aí. Peguei lá no Sierra Maestra (onde vc pode ver o mapa ampliado), que por sua vez achou no Strange Maps.

Genocídio cultural no Tibete

Posted by escriba on 27 Mar 2008 | Tagged as: civilização, geopolítica, internacional

Acabei de ler um bom artigo na versão online do Le Monde Diplomatique sobre o genocídio cultural que tá rolando no Tibete. Os chineses têm promovido o assassinato da cultura tibetana desde 1950, quando invadiram pra valer o país do Dalai Lama, e infelizmente não há sinais que de vão parar. Segue um trecho:

O Tibete deveria ter sido tombado por inteiro há décadas, pela Unesco, como Patrimônio da Humanidade. Seus mosteiros guardavam um imenso tesouro de fé, sabedoria e práticas religiosas que foi saqueado, dispersado e sistematicamente destruído pelos ocupantes maoístas durante décadas. O pouco que sobra hoje é minado pela modernização forçosa e sub-reptícia. Genocídio cultural quer dizer hoje as barulhentas comitivas de turistas chineses, vulgares e arrogantes, visitando como um lugar exótico o Palácio Potala, antigo mosteiro-mor e residência oficial do Dalai Lama e outros lugares sagrados do budismo tibetano. Quer dizer também hipermercados (chineses), bancos (chineses), eletrônica (chinesa), restaurantes e hotéis (para chineses) invadindo as cidades tibetanas. Quer dizer a ferrovia recém-inaugurada entre Pequim e Lhasa, na qual, além dos trens de carga, deverá viajar “o trem mais luxuoso do mundo”, segundo a propaganda, com “suítes cinco estrelas” para os turistas globais. Um detalhe: os vagões serão blindados, com vidros a prova de bala. Nunca se sabe…

Talvez só a Vaticano contenha um patrimônio cultural-religioso comparável aos tesouros guardados antigamente nas gigantescas lamaserias da Himalaia, onde milhares e milhares de monges produziam e conservavam obras-primas. A diferença é que o Tibete era − e só em parte ainda é − um país inteiro que vivia exclusivamente em função de seu sistema religioso, para sustentá-lo e eternizá-lo, sistema que proporcionava ao Tibete uma unidade fortíssima e identidade cultural milenária. Por isso mesmo, os chineses aplicaram-se, desde 1950, a destruir 70% dos mosteiros e matar metade dos monges tibetanos, obrigando finalmente o Dalai Lama ao exílio graças a uma fuga aventurosa, depois de muitas ameaças. Por isso, o Dalai Lama é a maior autoridade religiosa tibetana, e ao mesmo tempo seu único grande líder político.

O budismo, a cultura oriental e a cultura do mundo todo perderam no saque do Tibete. Mas a comunidade internacional não mexeu um dedo — assim como não nada fez na Armênia, em Biafra, Ruanda, e continua não fazendo no Darfur, etc. Vender Mercedes e Windows para os chineses é bem mais prioritário.

A íntegra do texto está aqui.

Tibete pede socorro

Posted by escriba on 25 Mar 2008 | Tagged as: boca no trombone, civilização, geopolítica, internacional

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E vc pode ajudar assinando petição online que está rolando por aí - chegou pra mim hoje. Eles querem chegar a 1 milhão de assinaturas. A petição é endereçada ao presidente da China, Hu Jintao, e pede “cautela e respeito pelos direitos humanos” na resposta do país aos protestos no Tibete, além de defender negociações com o Dalai Lama para resolver a questão.

E os Jogos Olímpicos de Pequim estão chegando. Faltam seis meses. Eu particularmente defendo um boicote ao evento, mas a idéia parece que não vai vingar. Nem a Anistia Internacional é a favor! Vai entender… Dos países que participam dos Jogos, poucos são aqueles que querem ficar de mal com a China, grande parceiro comercial do momento. O dinheiro sempre fala mais alto. Por enquanto só a França admite pensar em boicote. A Inglaterra diz que não vai reprimir protestos quando a tocha olímpica passar por lá. Membros do grupo Repórteres Sem Fronteira (RSF) causaram rebuliço na Grécia (link com direito a vídeo da ação), durante a tradicional cerimônia em que a tocha olímpica é acesa. É deles a imagem que ilustra este post, show!

Enquanto isso os tibetanos tomam pancada. O pessoal de Mianmar também. Se nada acontecer para acabar com a opressão chinesa por lá, muita confusão vai rolar nos Jogos Olímpicos. É esperar pra ver.