O economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, dá o caminho das pedras pro Brasil se segurar na crise. Como todo bom professor, o cara é pródigo em metáforas para explicar o que não é de conhecimento público. Faço coro:

Há um festival de ingenuidade praticado no país sobre como enfrentar essa crise. E eu acho que, no momento, nós temos uma franquia ideológica para fazer o que nós acharmos que deve ser feito. Estão absorvendo ações nos bancos, proibindo distribuição de dividendos, demitindo e reduzindo salários dos executivos dos bancos e isso tudo em um dos paraísos da liberdade, na Inglaterra, país que deu início a isso tudo com a senhora Thatcher.

Eu também não devolveria dinheiro de especulador que veio para o Brasil. É quebra de contrato? É! O governo norte americano vai indenizar a Sadia pelos 284 milhões de dólares que perdeu com o Lehman Brothers? É risco de mercado. Resumindo, existem duas questões, com tempos históricos diferentes para o Brasil. Uma é a discussão de como é que nós vamos segurar o emprego e como nós vamos preservar minimamente o crescimento da nossa economia. É uma questão de discutir uma coisa que saiu de moda chamada projeto nacional. Não basta botar o Mangabeira Unger a pensar nisso que não sai projeto nacional dele. Ou a sociedade civil discute isso, ou não dá.

Segundo, a curto prazo, nós temos que reforçar nossa defesas. E por isso eu sou completamente favorável à centralização do câmbio. E isso é um neologismo para cobrir moratória. Na verdade, é uma moratória.

Enquanto isso, o relatório político n° 4 da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), de outubro, sugere três passos políticos para se enfrentar a crise, alertando para os perigos dos países se fecharem em copas:

1 - A comunidade internacional deve ajudar os países cujas taxas de câmbio têm estado sob pressão. Esses são os países menores que a especulação ilimitada levou à supervalorização monetária, e que agora são incapazes de estabilizar suas taxas de câmbio em níveis razoáveis, enquanto o pânico geral do mercado ameaça levar essas moedas a níveis de desvalorização fundamentalmente insustentáveis. Nesses casos, a assistência deveria tomar a forma de arranjos provisórios, incluindo a intervenção direta no mercado de moedas por meio de contrapartes – i.e., desses países em que a taxa de câmbio é valorizada.

2 - A comunidade internacional deve ajudar os países dependentes de commodities em que a especulação ameaçou dirigir os preços para níveis muito mais baixos do que se havia alcançado antes do pleno desvelamento da especulação internacional, no verão de 2007. Aqui, a ajuda pode tomar a forma da intervenção direta nos mercados, tanto como subsídio quanto como empréstimo para estancar e estabilizar a rápida queda nas receitas.

3 - Todos os países com baixas e declinantes taxas de inflação devem adotar medidas contracíclicas imediatamente, em termos de estímulos fiscais e cortes nas taxas de juros.

Sei não, mas acho que o Brasil tem tudo pra sair de boa nesse cenário todo, por ter recursos naturais às pencas, bom parque industrial, contas equilibradas e amplo mercado consumidor. Algo me diz que a gente ainda vai exportar o PAC da goiabada de Lessa.