Definitivamente, a tecnologia digital mudou o jeito das pessoas ouvirem música. Com a tecla shuffle (baralhar), cada vez menos importa a ordem das músicas - vc enche CD ou tocador de MP3 com suas canções preferidas, clica no botão mágico e deixa rolar, se surpreendendo aqui e ali com as boas seqüências que surgem. Vc é o seu próprio DJ.

O conceito de álbum como existia nos tempos do LP e CD está mais moribundo do que nunca. Não adianta o artista abrir o disco com a música X ou Y, ou até mesmo criar obras conceituais, em que as faixas fazem mais sentido se ouvidas na ordem Z, porque eu vou lá e bagunço geral o coreto. Troco a ordem, misturo com sons de outros artistas, elimino o que acho que nunca deveriam estar naquele disco em primeiro lugar, faço o que quiser. É a vingança da cultura das coletâneas misturebas em k7, elas venceram afinal, quem diria! E toma Motorhead com Alceu Valença (eu tenho fita assim!), Ramones salpicado com Pato Fu, Raul Seixas duelando com Kansas. Uma vez alterei a ordem de todas as músicas do The Number Of The Beast, do Iron Maiden, dando prioridade às músicas de que mais gostava. Nada de começar com Invaders; os acordes iniciais da música-título davam início aos trabalhos com muito mais impacto. Martin Birch deu mole.

No carro atualmente tenho um CD de MP3 com nove álbuns completos - três do Bob Dylan (Blonde On Blonde, Blood On The Tracks e Modern Times), um do Big Joe Turner (coletânea), um do Ben Christophers (Spoonface), três do J.J. Cale (Naturally, To Tulsa And Back e The Road To Escondido) e um do Ali Farka Toure & Ry Cooder (Talking Timbuktu) - e só o escuto randomicamente. É a minha mini-rádio, sem os locutores malas, nêgo tentando me vender um novo 4×4 ou repetitivos informes sobre o trânsito na Marginal Pinheiros. Não tenho a menor idéia de qual é a ordem exata das músicas desses discos, muito menos suas respectivas capas. As possibilidades são infinitas! Com a transmutação dos átomos em bits, quem manda sou eu. Hoje quero assim, amanhã assado. Porque é preciso ser assim assado.

Não à toa surgiram na internet inúmeras páginas que oferecem ao usuário a oportunidade de criar suas próprias seleções musicais e compartilhá-las com amigos. A mais famosa delas, Last.FM (que funciona como um Orkut, só que dedicado à música), acaba de ser comprada por incríveis US$ 280 milhões pelo grupo americano de comunicação CBS, que tem 179 estações de rádio nos EUA. É a vitória do shuffle sobre o dirigismo musical. O aleatorismo venceu e vai mudar para sempre as rádios mundo afora.

E que os DJs ponham seus toca-discos de molho. Cada vez menos precisamos de alguém para nos dizer o que devemos escutar, como e quando. Muitas rádios tradicionais na Europa e nos EUA perceberam isso e já estão promovendo mudanças profundas no jeito como trabalham. Não querem perder tempo - e ouvintes, claro. É chegado o tempo das jack radios, com listas de músicas (digitais) mais extensas, nada de falação e grande variedade de estilos, tudo ligado em shuffle.

Mas a grande mudança deve acontecer nas gravadoras. Em algum momento elas perceberão que lançar CDs do jeito atual ficará bem anacrônico. Pensando um pouco mais, lançar CDs não fará mais sentido - um tocador de MP3 vagabundex, com 128 mb, está valendo uns R$ 100, até menos, com capacidade para mais ou menos 50 músicas, dependendo do tamanho dos arquivos; o novo do Lobobão (com 18 músicas) sai por cerca de R$ 25. Faça a conta. Se não fossem tão turrões em relação à troca de arquivos de música, as grandes gravadoras já estariam vendendo tocadores de MP3 com o novo U2 ou dos Rolling Stones a preços convidativos. E aí, o que importa a ordem das músicas? Shuffle nelas!