Em corajosa entrevista ao site Vermelho.org, o jornalista Luis Nassif ratifica o que muitos já perceberam: a mídia brasileira está em campanha uníssona, algo inédito no Brasil - quiçá no mundo. Digo corajosa porque é fato raro jornalista falar de jornalista e do modus operandi da mídia. Pior que a máfia. Jornalista critica, difama, acusa, condena livremente. Mas ai de quem ouse apontar suas baterias para um deles, apontar erros, revelar distorções ou criticar métodos. Como os peixes menores do oceano, eles se fecham num grande cardume e partem pra cima, numa tática invariavelmente bem sucedida.

Vou destacar alguns pontos da entrevista que considero serem emblemáticos do momento que vivemos no mundo jornalístico brasileiro.

Sobre a onda anti-Lula na mídia:

No começo do ano passado, alguns colunistas - não oriundos da impresa propriamente dita -, intelectuais e pessoas do showbiz, basicamente o (Arnaldo) Jabor e o Jô (Soares), começaram um crítica mais pesada ao Lula e ao PT. Essa crítica, num determinado momento, resvalou para uma posição de intolerência e teve eco na classe média.

Quanto teve eco, aconteceu algo que, para mim, é o mais inacreditável que eu já vi em mais de 30 anos de jornalismo: a Veja entra na parada e começa a usar aquele estilo escabroso. É inédito em termos de grande imprensa - e é um suicídio editorial. Agora, aquele estilo acabou batendo aqui, em São Paulo, em alguns círculos do Rio de Janeiro, induzindo a mídia a apostar na queda do Lula. Quando não conseguiu derrubar Lula, a mídia enlouqueceu. E então todos os jornais caminhavam na mesma direção. Isso não existe. Todo mundo enlouqueceu.

Sobre a importância da internet para mostrar a todos o que os (tu)barões da imprensa escondem:

Aquela diversidade que os jornais ainda tinham e perderam, o pessoal foi buscar na internet. E uma coisa a gente aprende com os blogs: se houver 20 blogs falando “A”, basta um blog falando “B” de forma consistente, que ele inverte e desmascara. Há a interação entre os blogs e seus leitores. Os blogs emergiram como uma alternativa. E isso culminou com a matéria do Raimundo Pereira na CartaCapital. Em outros momentos, a Carta teria feito a matéria e ninguém falaria nada. Agora a matéria teve um alarido infernal, de tudo quanto é blog discutindo. E o tema não morreu.

Interesse jornalístico da tal foto do dinheiro do dossiê:

Qual o interesse jornalístico de uma foto? Uma foto de dinheiro é igual a uma foto de dinheiro. Não há informação nisso. Essa foto ainda foi maquiada para dar maior fotogenia. O única interesse era como ela ia repercutir nas eleições, como no caso da Roseana Sarney. A gente sabia que esse dinheiro existia há semanas. O fato de aparecer a foto não tem significado nenhum.

Mas os jornais e TVs queriam dar a imagem para saber o efeito eleitoral da foto. Se o único interesse sobre a foto era esse, é evidente que a parte mais relevante do ponto de vista da notícia era saber como vazou a foto. E não deram isso. Manipularam e protegeram o delegado (Edmilson Bruno Pereira). Isso é um episódio marcante. Um golpe como esse, não temos paralelo em nossa história.

E por fim, a falta de honestidade da mídia para reconhecer o que milhões de brasileiros já sabem - e confirmarão no domingo:

Aquele papel da mídia, de ser mediadora, deixa de existir. E o Lula fez uma coisa de gênio político. Quando começaram os escândalos, ele mandou apurar tudo. Na medida em que o pessoal acusado foi tirado do barco, passou a sensação de que era possível reconstruir o governo Lula sem os barras-pesadas que passaram por seu governo.

Então você tem o Bolsa Família mudando a realidade brasileira, com a incorporação das massas excluídas. O Lula não é salvo pela política do Palocci ou do Banco Central, mas pelo Bolsa Família. E não apenas pelos que são beneficiados - mas também por aqueles que estão de fora e percebem que esse programa vai mudar a história do Brasil. Os jornais não se deram conta disso.

Quando ficou claro que o Lula não ia cair, começaram a falar: “Ah, mas o eleitor do Lula é nordestino, é analfabeto”. E quem fica com eles (os jornais)? Uma classe média muito paulistana, preconceituosa e anacrônica - porque quem é minimamente sofisticado, não entra nesse jogo.

A íntegra da entrevista pode ser lida aqui.

Agora deixa eu voltar para o debate, em que Lula degusta um chuchu de plástico (eca, que gosto!)