Carona em SP
Posted by escriba on 25 Nov 2005 at 02:03 pm | Tagged as: comportamento, egotrip
Lá estava eu, hoje de manhã, preso no engarrafamento da avenida Santo Amaro, atrasado para o trabalho pensando no nada, esperando o sinal abrir. Eis que uma morena sorridente e seu colega um tanto quanto constrangido me cutucam no braço e perguntam:
“Moço, dá uma carona pra gente?”
Não entendi de primeira e fiz o gesto que sempre faço quando quero me desvencilhar dos que pedem dinheiro na rua, logo dizendo: “Tô sem nada aqui…”
“Não, moço, a gente quer carona. Você tá indo em direção do Itaim?”
Foi quando olhei melhor pros dois. Jovens, sorridentes e nitidamente sem jeito de pedir uma carona assim, no meio de uma Santo Amaro lotada numa chuvosa sexta-feira.
“É que a gente tá sem passe, sem dinheiro, e tá chovendo…” disse a menina, tomando a iniciativa, já que o rapaz parecia querer desistir e andar a distância, que não é pouca - algo em torno de seis quilômetros.
“Vai moço, por favor…”
“Carona? Putz…”
Eles me pegaram desprevenidos. Fiquei uns segundos sem saber o que dizer, mas aí veio aquela voz que sempre aparece quando estamos frente a alguma novidade: “Por que não?”
“Entrem aí”, decidi instantes depois do sinal abrir e as primeiras buzinas soarem me avisando que já estava contribuindo para aumentar o índice de lentidão da cidade. Fui abrir a porta quando vi que tinha outras duas meninas do outro lado, que ficaram radiantes.
“Valeu mesmo, moço. A gente estuda aqui no Brooklin, na escola Oswaldo Aranha, temos que ir ao cartório eleitoral lá no Itaim hoje de qualquer maneira e descobrimos que não tínhamos dinheiro”, disse a menina que sentou ao meu lado na frente. Todos estudantes do 3o. ano, sonhando com suas novas futuras profissões. Me senti leve com a história toda, meu mau humor foi embora (a gripe não, infelizmente), conversamos sobre muitas coisas naquele curto espaço de tempo.
Não entendi porque me escolheram, talvez pelo adesivo do Greenpeace no carro, “esse tiozinho aí deve ser boa gente, hippie velho”, ou por ser eu um dos poucos que circulam pela cidade com o vidro aberto, mesmo com chuva. Ou foi puro aleatorismo, que nunca falha.
De qualquer maneira, foi divertido. Sempre falam dos perigos da carona, mas e os benefícios? É um bom exercício de solidariedade e de confiança no próximo. Oxigena a alma. Não nego os riscos, mas enfim, sou um eterno crente no ser humano.
Por que não?





