No domingo saiu um artigo bem interessante no caderno de cultura do Estadão sobre o lançamento do livro Sobre o Ofício do Escritor, de Arthur Schopenhauer. Trata-se de um fragmento da obra Parerga e Paralipomena (eita nomezinho complicado…) do filósofo que influenciou Nietzsche e combateu a empolação de Hegel. Sou fã desse cara.

Foi esse livro que me fez entender porque nunca fui muito fã das novidades (seja no cinema, nos livros ou na música), porque eu sempre demorava para descobrir coisas que todo mundo parecia já conhecer. Eu sempre parecia (e ainda pareço) estar uns dois ou três passos atrás… Claro que não ficava totalmente ignorante sobre o que acontecia no momento, mas gostava de praticar uma certa arqueologia, descobrindo autores, músicos, compositores, cineastas antigos, dos quais poucos se falava. “Tanta coisa boa lá atrás e tem gente perdendo tempo com esse lixo?!?”, argumentava em discussões na faculdade, quando dizia que preferia os autores clássicos aos atuais. Na música um pouco menos, cinema idem, mas mesmo assim, entre ver o novo arrasa-quarteirão do Spielberg no cinema e alugar um velho título do Sérgio Leone, fico com a segunda opção…

Como bem diz o filósofo no segundo texto do livro, Da Leitura e dos Livros, o livro (e eu extendo para a arte em geral) virou puro modismo (vide Bienal do Livro no Rio, em que as celebridades tomaram conta…). Todo mundo corre alucinadamente atrás da última novidade, só para estar a par da novidade. Para ser visto na exposição, pré-estréia ou noite de autógrafos. “Olha como ele é antenado!”

A arte virou mercadoria (como tudo nesses tempos de globalização consumista… viva o capitalismo!!) e vale tudo! Até esquecer a produção do passado em nome de um progresso ad infinitum que vai moendo o passado sem dó nem piedade. Quando alguém me pergunta: tu já escutou o novo disco dos Strokes ou do Franz Ferdinand ou alguma merda do tipo, respondo: não, estou curtindo o som do Yusef Lateef da década de 1960…

Não se trata de nostalgia elitista, não. Apenas sei que tem um monte de coisa boa que passou e não tive oportunidade de conhecer. A mídia e a máquina marqueteira do capitalismo consumista me empurra um monte de cacareco todos os dias mas tenho consciência de que não sou obrigado a engolir tudo isso, oras.

Schopenhauer afirmava que mais do que ler muito, é preciso meditar muito sobre o que se lê. Caso contrário, qual a graça? Assim podemos formar nosso gosto e começarmos a selecionar o que realmente importa e o que pode e deve ser dispensado.

Pois é, o problema é explicar isso para uma galera cada vez mais classe média… o mundo está ficando classe média, que bosta… Do tipo que aceita tudo, desde que bem embalado. Seja na livraria, no cinema, na música e até nos jornais… Por eles, a vida cultura seria uma grande loja Daslu, saca?